quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Fome

E na vastidão desse amor fui aprisionado por sombras intermináveis. E na solidão do seu olhar sou contemplado pelo orgulho diminuto, como um dia ganhando a penumbra, à tarde perdendo o estandarte. É à noite, em mim, concreto sólido e próprio orgulho de ser a gloria viajante das ruas sem fim. Sem fim foi você em mim um fracasso, pois durou tanto que em tão pouco para lembrar sinto as chamas da proeza indômita que faz ressoar através do preconceito calado de não refletir.

A cada lugar da cidade, grande cidade, sou prisioneiro das lembranças. Existem em vários lugares paralisadas as minhas formas em concreto, letárgico e ereto, hermético, rígido, paralitico dos sentimentos.

Em um café qualquer estou analisando tetricamente o jornal, as noticias velhas de um dia que ainda não rogou fim. Em qualquer desses vários bares estou afundando a alma, entregando minha penitencia ao fundo do copo, vidrado na inocência, na funesta incumbência de ser solitário. As marcas tiranas que riem.

Em meio à tundra romântica o hormônio ressoou, em versos destacou a anarquia cataclísmica, frágil e fria, concreta em postes escarlates, das ruas, em pegadas póstumas, memórias repostas de um louco são. Nuas ruas de tédio e presságio teu, de peito teu, sou seu, cidade avassaladora, cidade rocha e pedra, de vida morrendo em tempo, logrado ao desalento da infâmia.

Como a vida passa e concretiza a poetiza em lagrimas. Como a vida e dela o pão se dá. Como a calamidade eterniza inúmeras enfermidades do cão a espreita em terras não suas, não minhas, não como há dias por esperar a partida que paralisa, constrangendo o concreto em seu argumento solitário de unicamente ser e estar ali, e assim será!

Em coma o céu trará as lagrimas chuvosas daquela infância ruidosa, na rua dos loucos, pedregosa sensação da existência empoeirada resistência.

O estomago rasga e grita a necessidade, a fome, desalento para o pobre, em democracia pífia e passageira. Desculpas, pois esse seria então um sistema político acusado, benevolente em ser dos piores o melhor, já respirei garrafas plásticas de vodca barata, melhores do que tal ideal, conjugal menestrel dos ataques cardíacos urbanos, pois a fome não é idéia, é vida, e como concreto me detém.

Respiro a areia das prioridades. Primeiro a fome, viciada pelas horas. Depois o fantasma do vicio, que em ruas amargas se candidata a ser o contigo, a cantiga, fechada cantina, parada, parasitas, angustia em traços obsoletos de saudável razão.

Dê a mim, deus de alguém, de algum pão, restante, sobrando, restolho relutante em servir o umbigo que precisa, personifica a miséria em alma fervorosa, anátema do desejo, regorjeio como defesa o fato de ser alheio, periférico, faminto verme acariciando o asfalto como em você nunca soube digerir o prazer.

Cessou a ceia de homem ilustre, a ceia que, seria minha, sua. Madrugada, tarde manhã, dia ou noite, o ronco, ronquidão e tristeza em pedir um cifrão que das penitencias da igreja da esquina não se dão razão para o triste refrão do pobre faminto, cego e distinto em afeto faminto de barriga ainda vazia.
O homem que sempre come em fome morre por pedir.

Texto e foto: Bruno Luporini Chiarotti

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O claustro da roseta

Roseta. Roseta. Pedra de Roseta, decodifique meu bom senso, pois meu coração teme em fazê-lo. Minha esperança borrada, por dias de chumbo, marca a fase do herege moribundo que não acredita mais em si. Pois façamos a desavenças reais, sigilo nenhum calará meus esforços, concentrado em me perder dentro do ego mistificado, dentro da pele santificada pelas horas não vividas.

Converge o pessimismo alucinado dentro das orações mórbidas, e um bêbado petrificado pela sua visão do corrupto aliciado. Dentro de mim esta a paz que eu não poderia aceitar tão facilmente, dentro de mim se cala o algoz marechal de tantas estrelas que diante da jovem heroína pecou ao se lembrar de que era, ele assim tão alvo, apenas um homem, apenas uma passagem para o desconhecido ignorante do intimo.

Cada virtude se desmerece em nossa adolescência tecnológica, incapaz de tonar útil as inutilezas da vida moderna, concentrando-se em rinhas midiáticas, provendo sua testosterona em forma de companhia.

Rompendo o limite invisível do compromisso, da austera eternidade de meus sentimentos, sigo rindo externo sorriso ilusório, pois dentro, o holocausto perdeu seu sorriso há muito envergonhado.

Como ser esplêndido e latente, doloso e contundente, defendo as pegadas deixadas, rodeadas pelas correntes, em um caminho infiel aquele olhar expressivo que um dia herdei em sonhos fabricados.

Indelicado e corrompido, jovem de estilo abrasivo, marcou seu próprio futuro pela incapacidade de esperar. A natureza que acaricia as formas peculiarmente lentas encontra em mim sufocante respiração, apregoada de propagandas inverossímeis, decadentes de um ser que ama mais a idéia da necessidade, do que a física e lenta respiração pós gozo à deriva no tempo dos presságios.

Marcha aflita e desordenada. Névoas claustrofóbicas anunciam um beijo ainda longínquo, ambíguo e estupendo, dependendo da parada do pendulo, atravancado pelo soturno homem, que em desordem se protege da razão de sorrir.


Texto: Bruno Luporini Chiarotti

Imagem: walks_in_desolate_spaces_by_atelier_blanc

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Prelúdio da aurora

Vícios repugnantes, conferindo a um ser delirante o estado de cataclismo. Orgias de pensamentos débeis me revelam você indelével. E agora preso aqui, em meu âmago corroído, pertenço a tempestade, como o vento me revelo afoito, e como as águas sou diluído em relva atônica, úmida, delicada.
É delicada sua pele, cetim das horas. Delicadas horas que passam alegres com você longe, pois perto é deserto, é duvida megalomaníaca.
Pensamentos cada vez mais ensimesmados no fim, dedicados a corromper a lastima, mas que lastima! O couro gasto, as botas furadas, o cabelo sujo, são dias longos, de árduas caminhadas dentro do ego, dentro daquilo que , em desapego, rogamos para durar, assim, solto, é o que espero encontrar ao fim de penosa jornada, almas soltas esperando para serem cassadas como folhas secas ao chão.
Intrínsecos acordes, melodias proibidas, arranjam fundos misteriosos, panos de fundo para poetas malditos desdenharam as palavras em feridas ainda pulsantes.
E lá esta você? Ela que tenta a união entre alma e vida, que disfarça a fraqueza, comedida em enlaces falsos, desabrochada ela, é feia, e cálida, é meiga calada!
Não me abandonem. Mesmo na descrença, não me abandonem agora. Ainda estou na metade do caminho entre o terno e a prosa, entre as palavras e as sentenças, crendo que as vírgulas ressuscitarão minhas crenças, para que assim, mais uma vez, respire com alma plácida e coração limpo, esperando apenas o sangue correr, os pelos arrepiarem, a boca se contorcer, a fim de ver, desfocada pelas lagrimas, novamente a aurora.
Taciturno que conheceu em demasia seu mundo interior, agora não tem mais espaços a explorar, poucos corações sobraram para se deleitar. Como então remediar esta falta de virtude, esta expeça camada litúrgica, de pele, de esquecimento, do avesso?
Ternura refletindo a despedida do sol, o vento frio que entristece o atol, agora eu sei quem procurar. Agora pertinente seria esperar. Se não eu mesmo para me consolar.

Texto: Bruno Luporini Chiarotti

Imagem: Miranda - 1875, John W. Waterhouse

sexta-feira, 29 de abril de 2011

À nós

Que a arte seja eternizada em prosa ou verso.
Que a prosa em versos perdure.
Eu peço: mesmo neste tempo adverso...
...que a cênica nos cure!

Momentos lúgubres hão de surgir.
O tempo há de morrer.
Mas o próprio tempo nos fará crer...
...somos capazes de discernir.

Assim, soberano é o palco iluminado.
Em mim: poesia em forma real.
Em sorrisos nosso destino é selado.

Estandartes: tragam-nos a cura!
Juras que nos tornam sãos.
Irmãos de sangue e cultura.

Texto: Bruno Luporini Chiarotti

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ar

Então sou um tijolo absorvido na parede da vida. Um elemento meramente estrutural, preso, corroído pelo sal, colorido pelo sol.

O barro de meus pés, as manchas em meus dedos, os poros vedados pelo concreto. Preso em um sistema métrico. Impossíveis são meus movimentos. Não posso agredir a estrutura, muito menos abalar meus alicerces – Ah se ao menos os alicerces fossem meus!


E se ali eu não estivesse? Usual, por alguns momentos, não seria. Marrom tijolo, avermelhada vergonha de não poder ser de outras paredes. Quiçá um buraco estético, onde poderia o ar passar livremente, refrescando meus opacos companheiros.


Me riscam, me cospem, me pintam, me grudam e colam. Minha aparência sendo modificada pelos deuses da mesmice, sem ao menos meu sólido interior se alterar.


Rezando pela umidade casual, infiltrações cotidianas que de mim não se dão conta. As rachaduras, das perenes às grotescas, são agora a única esperança de liberdade, pois se assim fosse, eu viraria pó, e sendo pó sou muitos, que de tão pequenos, aos milhares, menores ainda, ao primeiro sopro serei então finalmente ar. No vento a voar. O oxigênio que tanto preciso.


Ar.


Texto: Bruno Luporini Chiarotti

segunda-feira, 21 de março de 2011

Almas espelhadas

Almas...

Que a distância seja símbolo maior.
Que as rubricas não sejam em vão.
Mente, corpo, alma, ser completo e são.
Nas horas com você, em abraços, o tempo menor.

Sucintos segundos de um beijo, realejo.
Minucias, em caricias, é eterno.
Em quanto dure: fraterno.
Almas únicas, tenras, em desejo.

Abrace-me, nem que o horizonte nos separe.
Disfarces, escondendo o sonho.
Continuo teu na rubrica dos olhares.

Seja então símbolo de um amante.
Que em ti respira a virtude.
Pois assim, eternizado, jamais um amor errante.


...espelhadas.

Que a distância não passe de meus braços apertando teu ventre.
Que as rubricas sejam confissões.
Não mentir para o corpo, não há espaços entre...
...pecados imaginários às reais aflições.

Sucintos segundos de tortura sã.
Minucias, devaneios, beijos texturados por lã.
Enquanto houver manhãs vazias...
...almas únicas a se encontrar por noites frias.

Abrace-me até o horizonte se extinguir.
Disfarces que não existem sós.
A nós, que lutamos contra magoas que hão de nos seguir.

Sejamos então eternos amantes.
Pois em ti respira minha virtude.
Pois assim, eternizado, não importam os caminhos errantes.


Texto: Bruno Luporini Chiarotti.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A máquina

Gira, escorrega, entorta, assim começam os dias suburbanos daqueles que se animam com um fim ainda distante. Grita, aparece e corre, vai à multidão delineando a efêmera fila da espera, grande e comprida. Desliza, amassa e chega, assim vão às horas frias, em tumultos quentes. Distorcidos e coerentes, as falas se cruzam nas linhas, as mensagens correm os céus apressadas, como nuvens de gafanhotos nos envolvem em peculiaridades banais. Pois se não estivessem lá talvez fossem as linhas mais vazias.

O tempo passa rápido, o estomago aperta e não respira aliviado. Imita, tranqüiliza e assume a culpa, os destemperos, ainda é cedo para tomar uma posição.

Come, xinga e cospe, o prato que nos alivia. Sairá de controle em poucos minutos, pois as distorções rotineiras daquele cigarro que irá digerir os pecados de uma manhã ainda não digerida.

Mente, levanta e vai. Caminhando passos heróicos de um desbravador, é o sistema que nos chama e constrói.

Fuma, respira e se inquieta, são as horas pesadas que custam a passar, se misturando às nuvens vespertinas de poeira que mais tarefas vem nos delegar.

Reclama, some e esconde aqueles segredos que passam despercebidos, pois só amanhã se forem sabidos, quiçá, hão de ser resolvidos, do contrario que se silencie a vontade de prosperar, uma vez que não nos submetemos a nenhuma mudança pragmática.

Se vira!Espreme e segue, é o estresse do homem cotidiano engarrafado na minhoca de metal, quebrando esquinas e mais esquinas de rostos alhures, de gestos corriqueiros, e ali está ela, aquele arrumar de cabelo, exatamente no tempo de um sinal vermelho, depois o passado das esquinas misteriosas hão de apagar o confronto da duvida, foi apenas um milagre da esperança causando dissabor no comum.

E assim quanto mais, quanto mais se gira, gira, gira e se vai, se cai, não se sai. Apenas a vida, a destemida vida que se esvai. É o homem metamorfoseado de maquina, é o tempo encobrindo o sol, a cortina de diamantes nos esfria quando o copo acaba.

Treme, enlouquece e dorme. O sono dos moribundos. Horas em extinção. Poucas horas em vão para novamente acordar e continuar sabe-se lá como, mas sabe-se que nunca para. É a máquina, o dia abraçando os sonhos, é a máquina, dentro, fora, entorno, ela esta lá. A máquina. A você!

Texto: Bruno Luporini Chiarotti

Imagem: Fabius_ - Avenida Francisco Glicério, Campinas

(http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?p=51738009)